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Jardinagem

por Ni, em 17.03.12

Não acredito em relações à distância. Não acredito em amores à distância, nem namoros à distância, nem casamentos à distância. Perdoem-me os crentes. Também não acredito em amizades à distância. Todos sabem.

 

Mas acredito em pessoas-catos. Adoro catos. Acho que foi uma outra das heranças da Tia. Os catos são maravilhosos. Não precisam de cuidados diários, aguentam muito tempo sem serem regados, sobrevivem a grandes ausências...

 

Tenho, pois, alguns amigos-catos. Passamos algum tempo separados, mas, no reencontro, umas gotas de água são suficientes para os alimentar. 

Ah! E nunca confiem na morte de um cato. Têm uma capacidade surpreendente de renascer com qualquer gestinho mínimo de amor. Vejam só: como prenda de anos da minha filhota, a minha avó Mimi, (a avó das prendas estranhas e inesquecíveis que tanto podem ser areia do chão de um qualquer sítio onde foi, uma caixa de fósforos ou uns versos nas asas de um anjo) enviou-lhe um chocolate e uma folha de um cato. A folha esteve esquecida num saco de plástico uns quinze dias, depois, mais um mês para eu me lembrar de a enterrar em qualquer lado, só para não ir para o lixo, a ver o que é que dá. Hoje, isto:

 

(é a do cantinho da esquerda, cheia de flores)

 

A propósito, sabiam que todos os catos têm flores? A Tia dizia sempre "um dia veio cá a casa o Doutor Qualquer Coisa (que devia ser, pela solenidade que emprestava à voz, um entendido no assunto) e disse-me que todos os catos dão flores, podem levar anos, mas dão". A verdade é que quando resolvi que aqueles catos precisavam de um bocadinho de terra nova, vasos novos, amor novo, um dia cheguei lá a casa e um cato em que eu nunca vira flor, nos muitos anos em que por ali andei, de repente, surgiu-me assim com uma flor tão imensamente bela que julguei que alguém ali tinha posto um flor artificial...

 

...aqui, deste lado da montanha.

 

 

 

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A herança

por Ni, em 28.12.11

As coisas têm a importância que nós lhes damos. Não sei quantas vezes ouvi esta frase à Tia, a propósito de pessoas, de ações, de atitudes, de palavras... mas, a bem dizer, parece-me que quando dizia "as coisas" nunca se referia mesmo a coisas. Porém, as coisas também têm a importância que nós lhes damos:

Continuamos as nossas obras infindáveis de reconstrução da casa da Tia, continuamos a aproveitar cada horinha para limpar, pintar, fazer, refazer... e, às vezes, isso é tão bom. Acho que aquela casa está cheia de boas vibrações.

 

Garantidas as divisões essenciais para a habitabilidade da casa, passámos, ontem, ao meramente acessório: o escritório. Agora, nem percebo como deixei passar tanto tempo antes de olhar com olhos de ver cada estantezinha, cada papelinho desta pequena divisão. Os livros não passam de uma dezena, mas cada um é uma revelação, para quem, como eu, se perde do tempo entre as folhas de um livro.

 

Apaixonei-me por dois: uma relíquia de 1877, que vale por cada ano que tem, e um outro que é uma preciosidade, pela imagem feminina que deixa esboçada e porque, se as coisas têm a importância que nós lhes damos, a esta coisa, inexplicavelmente,  eu resolvi dar uma importância do tamanho de um blog.

 

A relíquia:

            

 

A minha joia:

 

 

...aqui, deste lado da montanha.

 

 

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Morte

por Ni, em 24.02.10

 A Tia morreu. Prefiro esquecer os últimos meses em que não a reconhecia e recordar a pessoa adorável que ela sempre foi para mim. A Tia era a matriarca da família do meu marido. Tinha uma gargalhada maravilhosa, um abraço acolhedor, uma mentalidade jovem. 

 

Pouco tempo depois de me conhecer, convidou-nos a ficar nos anexos, quando íamos de fim-de-semana. Dizia que ninguém os usava, que lá estávamos à vontade. E estivemos. Sempre. Nunca me senti uma intrusa ou, sequer, uma visita. Nunca ela invadiu a nossa privacidade. Nunca lá entrou sem ser convidada e, no entanto, a casa era dela.

 

Muitas vezes ia para ao pé dela, na sala, na adega, ou no quintal, e ficávamos juntas, conversávamos. Eu gostava das ideias dela, dos valores dela, da franqueza, às vezes dura, dela. Mas o que mais admirava nela era a capacidade astuta de ler as pessoas e distinguir os sentimentos sinceros dos interesseiros.

 

E, assim, recordá-la-ei no carreirinho do quintal, que era uma jardim, rodeada pelas suas roseiras e cheia de gargalhadas para nos dar. E gostaria de morrer assim, aos 90 anos, com alguém a recordar-me como eu a recordo a ela.

 

...aqui, deste lado da montanha.

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