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um ano, uma palavra

por Ni, em 30.12.14

Devia escrever sobre 2014.

 

Mas para o ano que termina as palavras são poucas, escassas e fugidias, ainda. 

Os dias sucederam-se numa luta inglória contra um inimigo que acabou por vencer. Foi o ano em que fiquei mais pobre, menos amada, mais sofrida. Foi o ano em que percebi que o cancro é uma doença que consome tudo à sua volta. Não apenas um corpo, não apenas uma pessoa, mas principalmente a vontade, a esperança. Agora, tudo é só ausência e saudade. 

 

Se pudesse dizer numa palavra o que foi 2014, se todas as emoções, as lágrimas, os conflitos, os sentimentos coubessem num palavra, essa palavra seria VIDA. Fugaz, imensa, valiosíssima VIDA.

 

...aqui, deste lado da montanha.

 

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Recomeço

por Ni, em 01.09.14

Todo o fim é um recomeço.

Das vitórias guardamos os momentos. Aquele olhar. Um abraço. 

Das derrotas resta-nos o sabor amargo na boca. E não, não ficamos mais fortes.

 

Mas todo o fim é um recomeço, e sobra-nos a vontade. E à noite escura sucedem os dias. Cinzentos, ainda, mas a pedir um sopro de vento que remoça a chama. 

 

...aqui, deste lado da montanha.

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pequenas insignificâncias

por Ni, em 16.04.13

Leio por aí que morrem pessoas. Leio que morrem por aí. Mortos da guerra, mortos da fome, mortos da pobreza, mortos da estrada, mortos dos homens, mortos dos deuses. Leio e entristeço-me e sorrio. Há uma certa alegria nesta certeza de estar viva. Há uma certa alegria na possibilidade de aproveitar pequenos nadas que são tudo aos pés dos mortos das guerras, da fome, da pobreza, da estrada, dos homens e dos deuses que há por aí. 

 

Há, decerto, felicidade. Um esquecimento do que é pequenino e insignificante, aos pés da grandeza dos meus amores. Os olhos dos meus filhos, as mãos do meu homem... Poder voltar para casa. Ter uma casa, para poder voltar. Levar a vida com os olhos no outro lado da montanha, para lá chegar e não chegar só, porque a solidão de que gosto é a de estar a sós comigo e não, nunca, separada dos outros. Levar a vida com a alegria de ainda ter a possibilidade de estar viva.

 

...aqui, deste lado da montanha.

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O outro lado da morte

por Ni, em 24.02.10

 Tenho sempre muita dificuldade em ir a funerais. Talvez toda a gente tenha, mas o meu lado anti-social revela-se sempre um pouco mais nestas "manifestações colectivas". Penso que um funeral devia ser algo íntimo, mas não é e, às vezes, nós que quisemos tanto aquela pessoa nem temos tempo para a chorar. 

 

Compreendo que um funeral é um momento de dor e que, por vezes, as pessoas vão a um funeral por solidariedade com a dor de outra pessoa. E é bom, muito bom, sentir o apoio desses amigos.

 

Não compreendo que pessoas que nunca quiseram saber se alguém está bem de saúde, se tem o que comer, se tem o que vestir, se é feliz, apareçam, no dia do seu funeral, a chorar a sua morte, preocupados, apenas, com a sua própria pseudo-dor. Choram, não lágrimas do coração, mas apenas lágrimas de intenção. São as chamadas más intenções...

 

...aqui, deste lado da montanha.

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Morte

por Ni, em 24.02.10

 A Tia morreu. Prefiro esquecer os últimos meses em que não a reconhecia e recordar a pessoa adorável que ela sempre foi para mim. A Tia era a matriarca da família do meu marido. Tinha uma gargalhada maravilhosa, um abraço acolhedor, uma mentalidade jovem. 

 

Pouco tempo depois de me conhecer, convidou-nos a ficar nos anexos, quando íamos de fim-de-semana. Dizia que ninguém os usava, que lá estávamos à vontade. E estivemos. Sempre. Nunca me senti uma intrusa ou, sequer, uma visita. Nunca ela invadiu a nossa privacidade. Nunca lá entrou sem ser convidada e, no entanto, a casa era dela.

 

Muitas vezes ia para ao pé dela, na sala, na adega, ou no quintal, e ficávamos juntas, conversávamos. Eu gostava das ideias dela, dos valores dela, da franqueza, às vezes dura, dela. Mas o que mais admirava nela era a capacidade astuta de ler as pessoas e distinguir os sentimentos sinceros dos interesseiros.

 

E, assim, recordá-la-ei no carreirinho do quintal, que era uma jardim, rodeada pelas suas roseiras e cheia de gargalhadas para nos dar. E gostaria de morrer assim, aos 90 anos, com alguém a recordar-me como eu a recordo a ela.

 

...aqui, deste lado da montanha.

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Morte

por Ni, em 17.10.09

Esta é a minha homenagem à Anabela.

Queria poder descrever os pensamentos que se apoderam de nós quando a morte surge, assim, inesperada e prematuramente, mas o Rafael traz-me tão cheia de vida que sou incapaz sequer de querer pensar nisso. Por isso, deixo aqui apenas estas palavras: a vida é um sopro muito, muito passageiro e nós esquecemo-nos, vezes demais, desta verdade.

Será que nos teus poucos 27 anos tiveste oportunidade de chegar ao outro lado da montanha? Será que foste capaz de usufruir do caminho até lá?

Lamento a tua morte e, perdoem-me o sentimento egoísta de quem está a viver a maternidade na sua plenitude, lamento a tua morte anterior à da tua mãe, porque nenhum pai, nenhuma mãe devia chorar a morte de um filho. Não me lembro onde ouvi isto, mas, na verdade, se perdemos um companheiro, ficamos viúvos; se perdemos um dos pais, ficamos órfãos; mas, se perdemos um filho,  não há palavra que designe algo tão anti-natura.

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