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Os Óscares dos livros (parte 1)

por Ni, em 25.02.13

 Já não vou ao cinema. Adoro cinema e, por isso, já não vou ao cinema. Nenhum filme visto em casa, sujeito a todo o tipo de interrupções, a todo o tipo de ausência de estar sozinha se pode alguma vez comparar ao cinema. Já não vou ao cinema, porque é caro e porque não tenho com quem deixar os meus filhos. Obviamente, há todo uma questão de prioridades que me fazem faltar o tempo e o dinheiro para ir ao cinema, mas, ainda assim, acredito que a minha lista de prioridades está bem organizada, quando digo já não vou ao cinema.


Leio. E os meus óscares da leitura vão para...


 


Melhor Personagem Masculina Principal


 antónio jorge da silva


porque esta personagem tão lúcida e crua de oitenta e quatro anos me conquistou e me levou a ver um mundo que nunca aparece nos livros, o dos velhos.


 


"(...) mas eu não queria passar o tempo, queria mais é que ele não passasse, que importa a um homem de cem anos que o tempo passe. a mim importa-me é que não teime passar, que fique quieto, o estupor do tempo. e que me deixe ir dar as minhas voltas e ver as coisas ainda comprometidas com a vida, que aqui já só se vê aquilo que tem compromisso com a morte."


a máquina de fazer espanhóis, Valter Hugo Mãe


 


Melhor Personagem Feminina Principal


Adelaide.


"O livro estava mexido. Alguém o tinha aberto numa página, número 224, e feito pequenos círculos a lápis, à volta das seguintes palavras: gosto, de, ti. Três palavras distribuídas pela página com círculos à volta. Olhou em redor e, ao longe, entre pessoas distraídas, viu o leitor de livros da biblioteca a fixá-la. Desviou o olhar, guardou o livro na mala saiu. De repente, estava na rua. levava pensamentos a ganharem volume, como nuvens."


Livro, José Luís Peixoto.




Melhor Argumento Original


Os homens que odeiam as mulheres, Stieg Larsson


É um daqueles livros de verão, de praia, mesmo, para ler, ler, ler sem pensar muito, com muita, muita história a acontecer.


"Vinte anos, pensou. Era o tempo que aquilo já durava. E, no que lhe dizia respeito, podiam continuar a dormir juntos por mais duas décadas, pelo menos. Nunca tinham verdadeiramente tentado esconder a relação entre os dois, memsmo quando isso levava a situações embaraçosas no contacto com terceiros.


Mikael tivera, desde o início, a certeza de que aquele não era o tipo de amor antiquado que leva a uma casa partilhada, uma hipoteca partilhada, árvores de Natal e filhos. Durante os anos oitenta, quando nenhum dos dois estava ligado a outros compromissos costumavam falar de alugar um apartamento. Ele teria gostado, mas Erika recusava sempre no último instante. Não ioa resultar, dizia, arriscavam-se a perder tudo o que tinham se se apaixonassem. Mikael perguntava muitas vezes a si mesmo se seria possível sentir-se mais sexualmente atraído por qualquer outra mulher. O facto era que funcionavam muito bem juntos, e tinham uma relação tão viciante como a heroína.


Por vezes estavam tanto tempo um com o outro que era quase como se fossem um verdadeiro casal; outras, chegavam a passar semanas, ou meses, sem se verem. Mas, tal como os alcoólicos são atraídos para o balcão do bar depois de um período de abstinência, acabavam sempre por voltar.


(...) Mikael não tinha grande opinião a respeito de Greger, e nunca compreendera o amor de Erika por aquele marido complacente. Mas sentia-se feliz por ele admitir que ela podia amar dois homens ao mesmo tempo."


 


Melhor Livro de Animação (leia-se Infantil)


A minha mãe é a melhor do mundo, Maria João Lopo de Carvalho


( sou muito crítica em ralação aos livros infantis. Todas as noites leio uma história aos meus filhos, e tenho um trabalho árduo para escolher bons livros (ou são imbecis, ou sem sentido, ou difíceis, ou, pior de tudo, têm erros {#emotions_dlg.barf}). Agora que a filhota começou a aprender a ler, tenho de ter um cuidado redobrado, porque ela já vai espreitando, lendo e fazendo perguntas, já não dá para inventar palavras, sem correr o risco de ela perguntar onde é que eu estou a ler...)


 


Melhor Documentário


Agora, uma história de amores próprios, Pedro Boucherie Mendes


Embora o livro apareça classisficado como romance, as personagens são tão verosímeis ( tenho a impressão que me cruzei com o Vasco no fim-de-semana) que me apetece que seja um documentário.


"Porque é disto que se trata, de cultivar uma certa bipolaridade engenhosa, uma imprevisibilidade enervante, um retrato tão desfocado quanto possível. A ambiguidade na comunicação é de uma utilidade que nem se imagina e tem a vantagem de não precisarmos de fazer rigorosamente nada, a não ser deixá-la escorrer para que inunde tudo à sua volta."


 


Melhor Livro


A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe


porque sim, já se adivinhava, todas as apostas iam, aliás, neste sentido ou não fosse este livro o sustento diante do sol.



Melhor Escritor
Valter Hugo Mãe


Pressinto, triste, que não vai ser para a vida toda, esta minha recente paixão, mas enquanto houver a chama da novidade, deixemos o fogo arder. Gosto da sua escrita, gosto das suas personagens, gosto das suas "histórias" e, principalmente, gosto da mistura que cria com as palavras. Pode ser que, no fim, sobre o amor.


 

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Sopas de cavalo cansado

por Ni, em 24.02.13

Gosto de sopas. Gosto de cozinhar, gosto de comer, gosto de inventar sopas. Cá por casa há sempre uma sopa pronta, para comer quando se tem fome, ou quando não... Dá-me prazer juntar ingredientes e apurar os sabores para ver qual deles se destaca, para descobrir os sabores fortes, e os que aniquilam os outros. É talvez o meu lado bruxa a dar  asas à imaginação, não sei... 


 


Também gosto de sopas de gente. Pessoas que se juntam na mesma panela a falar até que uma consiga sobressair e apaladar as bocas dos degustantes. Por isso, ontem, comi uma belíssima sopa de gente, de Jel e Maria José Morgado, no programa "Quem diria", da Sic Notícias: uma sopa em que os sabores se combinaram, dividiram, separaram, e , por fim, se multiplicaram em vontades de mais uma dose. Dois sabores tão diferentes a fazer uma ótima combinação, como as tradicionais sopas de cavalo cansado, a dar ânimo, força e alento aos dias de esforço continuado.


 




Para ler: um livro com muitos, muitos sabores, principalmente mexicanos, é certo, mas perfeitamente adaptáveis à minha cozinha. 


"As amêndoas e o gergelim assam-se no comal(1). os chiles anchos, arranjados, também se assam, mas não muito para que não fiquem amargos. isto tem de se fazer numa frigideira à parte, pois põe-se-lhe um pouco de manteiga para o fazer. Depois moem-se no metate(2) juntamente com as amêndoas e o gergelim.

Tita, de joelhos, inclinada sobre o metate, movia-se rítmica e cadenciadamente enquanto moía as amêndoas e o gergelim.

Sob a sua blusa os seus seios oscilavam livremente pois ela nunca usara qualquer soutien. Do seu pescoço escorriam gotas de suor que rolavam para baixo seguindo o sulco de pele entre os seus peitos redondos e duros.

Pedro, não podendo resistir aos cheiros que emanavam da cozinha, dirigiu-se para ela, ficando petrificado na porta diante da postura sensual em que encontrou Tita.

(...) Tita soube na própria carne por que é que o contacto com o fogo altera os elementos, por que é que um bocado de massa se converte em pão, por que é que um peito sem ter passado pelo fogo do amor é um peito inerte, uma bola de massa sem qualquer utilidade."



Como água para chocolate, Laura Esquível



(1) Comal - disco de barro ou de metal que se usa para cozer tortillas

(2) Metate - pedra utilizada no México para moer cereais

 


A terceira nota é que este é um livro delicioso, ao qual voltarei certamente, uma vez que tenho inúmeras páginas marcadas com excertos muito bons.

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