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A pele que há em mim

por Ni, em 12.12.11

quando o dia entardeceu 
o teu corpo tocou num recanto do meu: uma dança acordou 
o sol apareceu, de gigante ficou. num instante apagou o sereno do céu 
e a calma a aguardar lugar em mim. o desejo a contar segundo o fim 
foi num ar que te deu, o teu canto mudou. o teu corpo do meu uma trança arrancou 
o sangue arrefeceu, o meu pé aterrou. minha voz sussurrou: o meu sonho morreu.. 

dá-me o mar, o meu rio, minha calçada. dá-me o quarto vazio, da minha casa. 
vou deixar-te no fio da tua fala. 
sobre a pele que há em mim.. tu não sabes nada. 

quando o amor se acabou 
o meu corpo esqueceu o caminho onde andou, nos recantos do teu 
e o luar se apagou. a noite emudeceu. o frio fundo do céu foi descendo, e ficou 
mas a mágoa não mora mais em mim. já passou, desgastei, para lá do fim. 
é preciso partir: é o preço do amor, para voltar a viver.. 
já nem sinto o sabor a suor e pavor, do teu colo a ferver, do teu sangue de flor. 
já não quero saber.. 

dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada. o meu barco vazio, na madrugada 
vou deixar-te no frio da tua fala 
na vertigem da voz quando, enfim,.. se cala. 

 


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Celebra-se hoje o aniversário do nascimento de Pessoa e eu sou invadida pelos seus versos, pelas suas palavras, pelos seus pensamentos. Adoro este poeta. Acho incrível como as suas palavras são tão verdadeiras, tão atuais, tão maravilhosas. Acho incrível que ele tenha conseguido viver a multiplicidade de eus que todos nós temos e que tentamos esconder a cada segundo das nossas vidas. Se deixássemos sair, de vez em quando, os nossos heterónimos, os nossos deuses e os nossos demónios, seríamos, decerto, um pouco mais loucos, um pouco mais puros, um pouco mais sonho.

 

Assim, celebro o poeta com a sua prosa:

 

"Não sei quem sou, que alma tenho.

Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).

Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.

Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.

Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."

 

1915?

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966.

 

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Livro-gourmet?

por Ni, em 15.03.10

 Comecei ontem A ilha debaixo do mar, da Isabel Allende. Houve uma altura em que lia tudo desta autora, até  ao livro A cidade dos deuses selvagens. Depois, como costuma acontecer quando leio sempre o mesmo autor, fartei-me, achava que os livros não correspondiam àquilo que eu esperava. Agora, e como ando à procura do tal livro-gourmet, deu-me vontade de voltar a experimentar.

 

Peguei no livro e, seguindo a rotina dos provadores, li as primeiras páginas. Foi direitinho para o carrinho das compras. Ontem, embora conseguisse parar de ler, apeteceu-me dizer, várias vezes, "é só mais uma página..."

Será este o meu livro-goumet pós-parto?

 

...aqui, deste lado da montanha.

 


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Aniversário

por Ni, em 08.10.09

 Como já se percebeu (ver post anterior) o humor hoje não anuncia nada positivo para o dia de amanhã e ,quando penso no que quero fazer no meu dia de anos, à minha mente, a cada minuto, chegam os versos de Álvaro de Campos:

Aniversário

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto. 
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, 
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, 
De ser inteligente para entre a família, 
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. 
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. 
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. 

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, 
O que fui de coração e parentesco. 
O que fui de serões de meia-província, 
O que fui de amarem-me e eu ser menino, 
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... 
A que distância!... 
(Nem o acho... ) 
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! 

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa, 
Pondo grelado nas paredes... 
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), 
O que eu sou hoje é terem vendido a casa, 
É terem morrido todos, 
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio... 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ... 
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! 
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 
Por uma viagem metafísica e carnal, 
Com uma dualidade de eu para mim... 
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! 

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, 
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado, 
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos... 

Pára, meu coração! 
Não penses! Deixa o pensar na cabeça! 
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus! 
Hoje já não faço anos. 
Duro. 
Somam-se-me dias. 
Serei velho quando o for. 
Mais nada. 
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ... 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!... 

 

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