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Dias de chuva

por Ni, em 18.02.13

A inércia é este passar os dias a ver a chuva chover. E ecoam-me as palavras da Candace, irmã do Phineas e do Ferb, pois, por cá, em fim de semana de chuva e febres há Panda e Disney em doses extra, «Não vais fazer nada, não te vais mexer, assim tens a certeza de que não podes perder». Detesto quando até os "bonecos" são moralistas... e têm tanta razão: se não te vais mexer, certamente não vais perder... o problema é esta morte lenta que não se consegue suportar quando ficas aterrorizada, petrificada, pelo medo de perder.


 



 


Tirando isso, a chuva dá-me tempo para organizar dois anos da minha vida em imagens. Adoro fotografias. De papel! Adoro álbuns. De folhas! Por isso, pus mãos às histórias... e às 967 fotos das histórias de 2011 e 2012...


 


 


Para ler: Jóia de Família, de Agustina Bessa-Luís

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tropeçar nos livros

por Ni, em 15.02.13

Respeito os leitores que não fazem dobras nos livros, para não os estragarem; os leitores que não riscam os livros, para não os estragarem; os leitores que não dobram os livros, para não os estragarem; os leitores que não levam os livros a passear para lá da beira da cama, da estante do escritório, para não os estragarem. Respeito até os que não lêem os livros, para não os estragarem.


 


Já eu, estrago todos os meus livros: não os sublinho, quando não tenho canetas à mão; dobro-os em todas as páginas que me marcam, retribuindo-lhes a marcação; levo-os e espalho-os pela minha vida... E depois, mais dia menos dia, tropeço neste ou naquele, e leio partes das páginas que fui dobrando, assinalando, marcando. E eles, os livros, retribuem-me sempre as minhas visitas fugidias. Respondem-me. Gritam-me.


 


"As coisas que parecem ter passado são as que nunca acabam de passar"


A Caverna, Saramago

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tempos sem tempo

por Ni, em 09.02.13

"Não tenho tempo para ler" - dizem-me alguns com os olhos infelizes,


Estendendo-me os braços, e seguros


De que eu tenho tempo para ler.


Quando me dizem: "Não tenho tempo para ler"


e eu olho-os, e nos meus olhos lassos também há ironias e cansaços quando lhes digo "compreendo-te bem". Pois que eu sou a primeira a saber o que é não ter tempo. Não tenho tempo para jogos no facebook, não tenho tempo para ver telenovelas nem casas de segredos, não tenho tempo sequer para ter tempo para fazer uma manicure que leve mais do que 10 minutos... pois, sei bem o que é não ter tempo...


 


Tempo para comer é outra coisa. Sempre acabamos por comer. Podemos até saltar uma refeição, passar só com uma sandes ou um iogurte, é certo, mas sempre comemos. Tempos há, com menos tempo, é certo, em que leio um livrinho-sandes, ou passo os olhos por duas páginas de uma maçã, mas sempre acabo por ler. Assim, se fazem os meus tempos para ler, como as refeições: ora de repasto demorado, desde entradas a café e aperitivo; ora de uma sandocas de pronto-a-comer. 


 


É a magia do tempo, um tempo que se desdobra em tempos, que vamos criando à medida das nossas vontades.


 

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 Gosto do Carnaval. Gosto de deixar as minhas personagens ganharem vida. Acho que sempre gostei do Carnaval, mas sempre faltou um outro lado ao Carnaval lá de cima. Lá em cima o Carnaval é do Brasil; lá em cima meia dúzia de pessoas vão brincar o Carnaval de samba, de corpo à mostra, e as restantes pessoas ficam a ver...


Foi só quando cheguei aqui  abaixo que comecei a perceber que havia um Carnaval para as minhas personagens. Em Torres, as pessoas vão brincar o Carnaval e meia dúzia fica a ver (arrependidas por não estarem lá também).


Em Torres Vedras o Carnaval não começa no Carnaval, começa muitas noites antes... Ninguém se sente muito mal por andar mascarado, porque todos andam e os que não andam queriam andar. E há os Fidalgos, e os assaltos, e os reis e a Confraria, e as Matrafonas... um monte de coisas boas que me fazem gostar do Carnaval. 


 



 


Para ler:primeira versão escrita de O capuchinho Vermelho, de Charles Perrault


"Capuchinho Vermelho despe-se e vai meter-se na cama, onde ficou muito espantada de ver as formas da avó em camisa de noite; e disse-lhe:
«Avó, que grandes braços tem!»
«É para melhor te abraçar, minha filha.»
«Avó, que grandes pernas tem!»
«É para correr melhor, minha pequena.»
«Avó, que grandes orelhas tem!»
«É para escutar melhor, minha pequena.»
«Avó, que grandes olhos tem!»
«É para ver melhor, minha pequena.»
«Avó, que grandes dentes tem!»
«É para te comer.»
E, ao dizer estas palavras, o Lobo malvado atirou-se sobre Capuchinho Vermelho e comeu-a.
MORALIDADE
Vê-se aqui que crianças jovens, sobretudo moças belas, bem feitas e gentis, fazem muito mal em escutar todo o tipo de gente; e que não é coisa estranha que o lobo tantas delas coma. Digo o lobo, porque nem todos os lobos são do mesmo tipo. Há-os de um humor gracioso, subtis, sem fel e sem cólera, que — familiares, complacentes e doces — seguem as jovens até às suas casas, até mesmo aos seus quartos; mas ai!
Quem não sabe que estes lobos delicodoces são de todos os lobos os mais perigosos."


 


Incluído em 1695 num manuscrito intitulado Contes de ma mère Loye e depois publicado, em 1697, em Contes et histoires du temps passé, avec des moralités sob o nome autoral de Pierre Darmancour, filho de Charles Perrault, membro da Academia Francesa

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