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Post do desassossego

por Ni, em 21.02.13

Quando os demónios das palavras são muitos, o desassossego é imenso, escrevo, e não, não me recomendo.




O pessoal gosta de falar, gosta de dizer alguma coisa, ainda mais se alguma coisa for dizer mal, reclamar, barafustar. O pessoal gosta de dar a sua opinião, como se a sua opinião fosse, realmente, alguma coisa que importasse. O pessoal gosta de dizer que a culpa é da crise e a crise passou a ser A desculpa. Chegas atrasado ao emprego, a culpa é da crise; andas nervoso com as pessoas, a culpa é da crise; os miúdos estão a ficar mal educados, a culpa é da crise; passas horas a ver os programas fritadores de cérebros da televisão, a culpa é da crise... Enfim, o bode expiatório perfeito, a crise...


 


 


Sou só uma professorazita, logo, funcionária pública, logo uma das causadora da crise, logo tenho de ser eu a pagá-la.


Sou só uma funcionária pública, sem horário das nove às cinco, logo sou professora, logo estou meio ano de férias, pois todos sabem que quando não há aulas, os professores estão de férias...


Sou só uma professorazita, logo cerca de 500 euros do meu salário são para pagar um subsídio de desemprego, provavelmente de uma das pessoas que costuma ser chamada para trabalhar na minha escola e que não compreende como a podem fazer trabalhar se ela está muito melhor em casa e ganha o mesmo(ó stora, até ganho mais, porque não gasto dinheiro nos transportes), a culpa só pode ser da crise! Ou então os meus 500 euros servem para pagar algum subsídio do Zé que fica em casa a fazer filhos e que vem à escola de táxi, porque o autocarro é muito cedo (ó stora, tinha de esperar uma hora!- o que é imenso, sabendo-se que não tem emprego), e não compreende porque é que a assistente social lhe deu uma máquina de café que nem sequer é da nespresso, a culpa só pode ser da crise... 


Sou só uma professorazeca, que andei 9 anos a ser colocada a 550 km do sítio a que podia chamar casa, que fiz 320 km por dia para vir dormir ao sítio a que podia chamar casa. Como posso eu compreender que as pessoas estejam a ser obrigadas a emigrar para ganhar a vida?...


Sou só uma professorazita que tive de deixar a minha filhota, bebé, em casa, doente, fazer 200 km, duas vezes por semana, depois do trabalho, para poder arranjar um emprego mais estável, ainda que agora me tirem 500 euros para dar aos que ficaram em casa com os seus bebés, nos seus sofás, a ver os seus programas fritadores de cérebros da televisão. Como posso eu compreender que as pessoas sejam obrigadas a arranjar novos empregos?...


Sou só uma professorazita, funcionária pública, que tenho mais é de pagar a crise.


 


Sou muito solidária com os que se levantam, os que correm mundo, os que vão à guerra, mesmo em tempos de crise! Lamento que haja quem não tenha que comer e todos os dias tenha de recontar o dinheiro, para pagar o almoço dos filhos;


mas para os outros, os do sofá, a quem eu estou a pagar a conta da luz, enquanto vêem os programas fritadores de cérebro, para os outros, eu tenho um conselho: logo à noite, quando não tiverem o que comer, comam telemóveis!!


 


Para ler:


"O que seria a França? A Adelaide sabia três coisas do país para onde se dirigia: na França, as pessoas tinham máquinas que faziam a lida da casa, que varriam o chão, que lavavam a loiça e a roupa, braços de ferro; na França, as pessoas só andavam de automóvel, mesmo para ir à padaria; na França, as pessoas comiam carne de cavalo cozida. Esta última informação era a que mais espécie lhe fazia, tinha pena dos bichos. também já tinha ouvido falar da cidade de Paris, conhecia o nome, e também já sabia que os franceses falavam estrangeiro. Como iria entender-se num lugar em que toda a gente falava estrangeiro e comia cavalo? Durante as horas da viagem, coberta por lona, a fugir com o rosto aos olhares embaciados dos homens, a Adelaide apoquentava-se (...)"




Livro, José Luís Peixoto




Gosto de José Luís Peixoto, mas este livro, Livro, hipnotizou-me até mais ou menos a meio e, depois, o narrador começa a interagir com o leitor de uma forma um pouco forçada, e foi perdendo o encanto {#emotions_dlg.serious}.


 


 


 

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