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o amor e outros demónios

por Ni, em 20.02.13

Os meus demónios maiores têm sempre a  ver com os meus filhos, porque os meus demónios são na proporção dos meus amores e desamores. Os filhos dão-te essa coisa com o nome de Amor, incomensurável. Do outro lado do amor, o medo, sempre o medo.


E, de repente, percebes que afinal és capaz de atrocidades, afinal és cheia de super-poderes, afinal consegues fazer tudo. Do outro lado, de repente, percebes que não podes deixar de ter medo de perder, nao consegues tirar os pés do chão, afinal não consegues fazer nada.


Os meus demónios maiores têm sempre a ver com esta vontade de não deixar de voar, mas ter sempre um ninho onde cair, se assim tiver de ser. Os meus demónios maiores têm sempre a ver com esta vontade de voar que não se extingue em mim e a certeza de que já não posso, não quero, voar sem rede. 


E, então, aprendes a voar com os pés no chão. 


 


Para ler: Mulher em Branco


 


"Tu à espera do nosso filho.


O que é ter um filho, Laura, será que as pessoas sabem?


Será gente, um pedaço de mim, outro de ti? será dos dois, queremos saber, perguntamos de bocas fechadas só a escutar. Será uma soma, seremos nós multiplicados por nós?


Uma pessoa, já viste, uma pessoa que não existiria se não fôssemos nós. Um milagre, já viste, a matéria dos milagres.


Um dia, um pouco abaixo do teu coração, um outro coração começou a bater. Já pensaste. Como é possível as pessoas não se espantarem em permanência, como se compreende que olhem com naturalidade o que só pode pertencer à matéria dos milagres.


(...)


Mas tu sabes e eu sei. Essa matéria inexplicável transforma-nos para sempre. E de pessoas passamos a bichos. Porque essa coisa pequenina, que começa por ser um coração a bater pouco abaixo do teu, essa coisa pequenina altera-nos o sangue. Não somos já pessoas mas feras, narinas no ar, atentas, nervosas, ouvimos muito longe, vemos no escuro.


Porque antigamente não tínhamos medo de nada e agora uns receios infundados, um aperto permanente. Porque antigamente nunca nos passaria pela cabeça matar alguém. E agora. Sabemos que conseguiríamos. Fosse caso disso e nem uma hesitação. O mundo que víamos já não é o mundo. Somos bichos."


Mulher em Branco, Rodrigo Guedes de Carvalho


 


Os livros do Rodrigo Guedes de Carvalho foram todos uma surpresa boa para mim. Os temas são sempre fortes demais, não recomendáveis a depressivos, mas a sua maneira de escrever é maravilhosa. Gosto muito. Talvez pondere convidá-lo para o meu jantar de famosos.


 


 

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