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A preguiça da leitora

por Ni, em 31.12.12


A memória atraiçoa-me, mas tenho quase, quase, a certeza de que algures pelos finais dos anos 80 e princípios de 90, em que devorei centenas de almanaques "patinhas", comprados sempre por uma colega da escola, li, uma vez, um especial que oferecia ao leitor a hipótese de ir escolhendo a continuação da história. Era tipo um "você decide", mas sucessivo. Por exemplo, o tio Patinhas tropeça numa moeda, o que acontece a seguir? Apanha-a e esconde-a no bolso (continua a ler na página 10). Apanha-a e investe numa promoção de guarda-chuvas (continua a ler na página 20). E a história era, afinal, duas histórias que se faziam à medida das nossas vontades. E, o melhor de tudo era que, assim que terminavas a leitura da tua primeira versão, voltavas atrás para ler as outras hipóteses que tinhas saltado e acabavas por ter uma outra história...




Tinha um lado mau, é certo. O leitor é preguiçoso, gosta que lhe escolham os finais, que decidam por si que destino vai ter esta ou aquela personagem, mas a possibilidade de voltar atrás e fazer tudo de forma diferente tinha um gosto incomparável. Melhor do que escolher investir em guarda-chuvas era saber que, no minuto seguinte, uma tempestade inesperada levava o rico tio Patinhas a um lucro de mais de 1000%...


Melhor do que poder voltar atrás e escolher outro caminho era saber aonde esse caminho nos levaria... 


Fora de páginas, isso é absolutamente impossível, por isso não gosto de escolhas. Não sei se já o disse, sou balança, não gosto de ter de escolher. Quero que me mostrem as coisas e digam que são assim. Ponto final. Depois, vou criticar, apreciar, mudar, sugerir, gostar, não gostar, mas escolher, não. Não quero. Não se faz isso a uma balança. Por isso sou leitora compulsiva, não quero decidir nada, quero que um qualquer autor decida por mim, tudo. Quero só preguiçar na leitura e, depois, criticar, apreciar, mudar, sugerir, gostar, não gostar.


 


Assim sendo, e porque este post já ultrapassou há umas vinte linhas atrás o limite razoável de um post grande demais, sei lá se na passagem de ano é melhor ficar ou ir embora, se é melhor começar o ano sozinha ou acompanhada, sei lá se quero dormir toda a noite ou dançar toda a noite… quem me dera poder saltar páginas, e conhecer todos os finais possíveis para as minhas escolhas.


 


Não podendo, dêem-me só um livro para preguiçar. Até pode ser "tio Patinhas"...


 

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