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a mulher que passa

por Ni, em 08.03.13

 


A mulher que se senta em frente ao computador acabou de passar a ferro a roupa que estendeu ontem, quando acabou de apanhar a roupa que pôs a secar antes de ontem, quando acabou de levantar a mesa, quando acabou de deitar os filhos, quando acabou de preparar as mochilas do dia seguinte, quando chegou do trabalho, depois de passar pelo sapateiro e pela padaria e pela farmácia, antes de voltar ao trabalho para resolver problemas que outros criaram, depois de mais uma reunião de papéis, quando acabaram as discussões sobre pais ausentes, mesmo logo a seguir ao telefonema a informar da febre do filho, dois dias depois de uma crise inesperada no hospital, assim que se sentou para um jantar apressado.


 


E como a mulher que se senta em frente ao computador ainda tem de ir passar a ferro a roupa que estendeu de manhã, deixa-vos um poema:


 


A mulher que passa


 


Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontravas se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como cortiça
E tem raízes como a fumaça.


 


Vinicius de Moraes

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